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Nascido em 22 de fevereiro 1810, na pequena cidade polonesa de Zelazowa Wola, Frederic Franciszek revelou-se um menino prodígio ao compor e executar publicamente sua primeira obra musical aos oito anos de idade.

Conta-se que, antes mesmo de aprender a escrever, o garoto já tentara compor melodias. Aos 15 anos, era considerado pela crítica “o maior pianista de Varsóvia”. Logo viu-se que sua arte não ficaria confinada à Polônia, cuja capital, naquele ano de 1830, estava prestes a ser invadida, saqueada e incendiada pelas tropas do czarismo russo. “Ah, a cidade ardendo e eu sem poder matar sequer um moscovita”, queixou-se, numa carta a um amigo, na viagem a caminho da capital francesa.

Em Paris, ele encontrou fama e dinheiro. E, a partir daí, Frederic Franciszek Chopin passou a ser afrancesadamente conhecido como Frédéric François Chopin –ou, simplesmente, Chopin. A fama só aumentou. O dinheiro ele gastava com tanta ou maior facilidade –e voracidade– quanto ganhava.

Enquanto dava aulas de piano aos filhos e esposas dos parisienses mais abastados, fez contato com futuros mestres do mundo musical da época, a exemplo de Liszt e Berlioz. Passou a vestir-se impecavelmente: roupas de linho branco importado, lenços de seda no pescoço, capas pretas e sobrecasacas encomendadas aos melhores alfaiates da França. Andava em um cabriolé próprio, contratou um cocheiro e meia dúzia de criados. “Se eu fosse mais tolo do que sou, acreditaria ter chegado ao topo de minha carreira”, escreveu ao pai, Nicholas Chopin, professor de francês e literatura no Liceu de Varsóvia.

O rapaz estava certo. Ele iria ainda bem mais longe em sua promissora carreira. Ao lado de seu inegável talento, a saúde frágil, os modos aristocráticos e o comportamento reservado ajudaram-lhe a consolidar a imagem de “gênio esquivo” entre seus pares. Um caso de amor platônico e um romance proibido contribuíram para que Chopin mergulhasse em um estado permanente de melancolia profunda, traço de personalidade que para sempre seria sua marca registrada.

Em 1829, seus olhos azuis-cinzentos se depararam com os de Constância Gladkowska, uma estudante de canto do Conservatório de Varsóvia. Foi uma paixão fulminante, mas Chopin jamais teve coragem de declarar-se a ela. Mais adiante, conseguiu pedir a mão de outra moça, Maria Wodzinska, uma polonesa que conhecera na infância e reencontrara em Paris. O namoro não seguiu adiante por determinação expressa da mãe da jovem, que não queria vê-la casada com um “pianistazinho tuberculoso”. As cartas que enviara à amada foram providencialmente devolvidas. Chopin as guardou em um único envelope, no qual escreveu: “Moja bieda” (“Meu sofrimento”).

A introspecção de Chopin refletia-se também em seu modo singular de apresentar-se ao piano, ao ponto de ele ser censurado por alguns críticos da época, que consideravam “fraca” e “com pouco volume” a sonoridade que o músico extraía do instrumento. Berlioz foi um dos primeiros a chamar a atenção para o fato de que, com isso, na verdade, Chopin inaugurava um novo estilo de tocar, mais intimista que o habitual. “Chopin executa suas composições com extrema doçura, com pianíssimos delicados, os martelos tocando de leve nas cordas, de tal maneira que somos tentados a nos aproximar do instrumento para prestar atenção, como faríamos ao ouvir um concerto de silfos ou de duendes”, escreveu Berlioz.

Depois do caso de amor fracassado com Wodzinska, Chopin acabou unindo-se, em 1838, com a controvertida escritora Aurore Dupin, que assinava seus escritos com o pseudônimo masculino de George Sand. Os dois formaram um casal singular. Ele, esquivo e doente. Ela, oito anos mais velha, expansiva, divorciada, dona de uma legião de amantes, escandalizava a sociedade da época por seus livros ousados, seu hábito de fumar charutos em público, suas idéias socialistas e suas roupas de homem. “Como mulher, é um belo rapaz”, definiu-a certa feita o poeta Alfredo Vigny. A despeito das diferenças evidentes, Chopin e Sand permaneceram juntos por cerca de dez anos. Houve inclusive quem insinuasse que Chopin, de ar quase afeminado, encontrara seu par perfeito.

Logo no início da relação, o casal decidiu abandonar Paris e refugiar-se em Palma de Mallorca, no litoral da Espanha, onde julgavam escapar da curiosidade pública e, ao mesmo tempo, encontrar melhores condições climáticas para cuidar da saúde abalada de Chopin. Não foi, porém, uma escolha feliz. A umidade local provocou uma série interminável de hemoptises (expectoração de sangue dos pulmões) no compositor, que um ano depois resolveu retornar a Paris, mais cansado do que partira. A união tumultuada entre o músico e a escritora foi rompida em 1846, após uma longa sucessão de crises mútuas de ciúmes. A experiência do casamento rendeu a ela a publicação do folhetim Lucrezia Floriani, no qual é impossível não identificar um dos personagens, Karol, um príncipe neurastênico e tuberculoso, com o próprio Chopin.

Frédéric Chopin morreu em 17 de outubro de 1849, solitário e endividado, com apenas 39 anos, em seu apartamento em Paris. Havia deixado de compor desde o ano anterior e, insatisfeito com sua produção mais recente, chegara a destruir várias partituras inéditas. Antes do sepultamento, os amigos atenderam-lhe o último pedido, rabiscado em um papel, na véspera da morte: seu corpo deveria ser aberto e o coração extirpado. Isso porque o maior temor de Chopin sempre fora o de sofrer uma crise de catalepsia (doença que faz com que pessoas vivas pareçam temporariamente mortas) e ser enterrado vivo.
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